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Mensagens

O valor da filosofia

O valor da filosofia está na sua incerteza. Quem nunca desenvolveu pensamento filosófico atravessa a vida prisioneiro de preconceitos fruto do senso comum, das crenças habituais do seu tempo e do seu país, assim como de certezas que foram crescendo na sua mente sem o consentimento da sua razão. Para essa pessoa o mundo tende a tornar-se definitivo, finito, óbvio; os objectos comuns não suscitam qualquer questão e possibilidades menos familiares são liminarmente rejeitadas. Mal começamos a filosofar, pelo contrário, descobrimos que mesmo as coisas mais corriqueiras conduzem a questões às quais apenas podemos dar respostas muito incompletas. A filosofia, apesar de não ser capaz de nos dizer quais as verdadeiras respostas às questões que levanta, é capaz de nos sugerir várias possibilidades que ampliam os nossos pensamentos e os libertam da tirania do hábito. Assim, apesar de diminuir as certezas que temos acerca das coisas, aumenta enormemente o nosso conhecimento acerca do que essas c…
Mensagens recentes

Entre a Religião e a Ciência ... (Bertrand Russel)

Os conceitos da vida e do mundo que chamamos “filosóficos” são produto de dois fatores: um constituído de fatores religiosos e éticos herdados; o outro, pela espécie de investigação que podemos denominar “científica”, empregando a palavra no seu sentido mais amplo. Os filósofos, individualmente, têm diferido amplamente quanto às proporções em que esses dois fatores entraram no seu sistema, mas é a presença de ambos que, em certo grau, caracteriza a filosofia. “Filosofia” é uma palavra que tem sido empregada de várias maneiras, umas mais amplas, outras mais restritas. Pretendo empregá-la no seu sentido mais amplo, como procurarei explicar adiante. A filosofia, conforme entendo a palavra, é algo intermediário entre a teologia e a ciência. Como a teologia, consiste em especulações sobre assuntos a que o conhecimento exato não conseguiu até agora chegar, mas, como ciência, apela mais à razão humana do que à autoridade, seja esta a da tradição ou a da revelação. Todo o conhecimento definid…

Do modelo para o melhoramento da Democracia (É preciso polemizar)

Muito se tem escrito sobre os defeitos das democracias contemporâneas, e como estas aparentemente não conseguem cativar muito do eleitorado que se manifesta descontente com o regime político. Claramente, tendo em consideração os registos histórico-políticos, pode-se afirmar que o descontentamento da população perante a classe dirigente está sempre relacionado com questões de natureza económica que geram pobreza e desemprego, podendo ser acentuadas com aspetos adicionais de natureza relevante mas todavia com menor impacto, como migrações de povos culturalmente diferentes. Havendo bem-estar, pleno emprego e alto nível de vida, por norma os povos demonstram pouco descontentamento perante a classe política dirigente, independentemente dos regimes políticos em vigor. Os regimes democráticos tendem naturalmente a atenuar tais descontentamentos populares pois o sufrágio permite ao eleitorado fazer escolhas, mas muitas das escolhas que parte do eleitorado de facto prefere ver instaladas em mo…

Cultura do consumo

“A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.” “Esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.” Eduardo Galeano A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consu…

Filhos de ninguém

As pulgas sonham com comprar um cão,
e os ninguéns com deixar a pobreza,
que em algum dia mágico a sorte chova de repente,
que chova a boa sorte a cântaros;
mas a boa sorte não chove ontem,
nem hoje, nem amanhã,
nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte,
por mais que os ninguéns a chamem
e mesmo que a mão esquerda coce,
ou se levantem com o pé direito,
ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns:
os filhos de ninguém,
os donos de nada.
Os ninguéns:
os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal,
aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano, …

Direito a sonhar

Torna-te o que és

“Neste ponto já não há como eludir a resposta à questão de como alguém se torna o que é. E com isso toco na obra máxima da arte da preservação de si mesmo – do amor de si… Pois admitido que a tarefa, a destinação, o destino da tarefa ultrapasse em muito a medida ordinária, nenhum perigo haveria maior do que perceber-se com essa tarefa. Que alguém se torna o que é pressupõe que não suspeite sequer remotamente o que é”  Nietzsche, Ecce Homo,

A ausência do Corpo na Comunicação Online - Resumo

"Num mundo onde pudéssemos satisfazer os nossos desejos, jogar, namorar, assistir a concertos e visitar exposições, entre muitas outras opções, que vida escolheríamos ter? E se pudéssemos ser mais altos, mais morenos, mais musculados, mais magros, de cabelo ruivo encaracolado e de olhos verdes, quem é que escolheríamos ser? Mas por trás dos avatares, quase tão perfeitos como o mundo em que habitam, estão os seus eus, que conseguem saber os desejos que pretendem satisfazer e que possuem gostos, interesses, que se inserem em grupos e até podem pertencer a uma família, tal como na vida real. Aqui, no mundo virtual do Second Life, mundo simultaneamente dos arquétipos platónicos e das ilusões consentidas do Matrix, os avatares alienam-se dos seus eus, vivem intensamente experiências que não dispõem na vida real, como acontece nos jogos em que têm de assumir o papel de determinada personagem e o vivem como se fosse o seu. Há também quem considere este mundo como um complemento da vida…

A apologia da ciência e a inutilidade das artes e das humanidades - por João Paiva

1. Tenho mais de 30 anos dedicados à ciência, principalmente ao seu ensino e divulgação. Não me canso de sublinhar o fascínio pela forma científica de questionar, conjeturar, observar, experimentar, teorizar e até prever o que se passa no mundo natural. São, resumidamente, duas as pérolas desta empresa científica: a) o sabor, o gozo, o prazer e o deleite de tatear a natureza; b) a potencialidade benfazeja que os conhecimentos científicos encerram, uma vez que, quando aplicados por meio do que chamamos tecnologia, podem beneficiar a humanidade. O aumento médio da esperança e da qualidade de vida, à escala global, é um bom exemplo que sentimos (infelizmente não todos...). 2. O poder que a ciência adquiriu é impressionante. E adivinha-se que assim continue a ser. As nações mais poderosas confundem-se com os países de maior arsenal científico e tecnológico. Este poder tem de ser questionado, para que não seja mal usado. A ciência atual, tenha ou não aplicações imediatas, está condenada a…

Variações com janela para a Filosofia - Levi António Malho

No limiar do inútil, olhada de lado, a Filosofia é uma arte difícil num tempo marcado pela pressa, pela economia da comunicação, vamos ao que interessa, deixemo-nos de conversas moles que não adiantam nem atrasam! Só por engano a Filosofia é paixão, actividade que emagrece, tira o sono, não deixa fazer mais nada. Pelo contrário, é uma longa paciência, regressar aos locais de sempre, procurando aquilo que se não vê quando corremos o mundo com horas marcadas, fotografar à pressa, depois por entre balbúrdias mil, mostrar as “imagens” da viagem a parentes e colaterais. Na correria dos “programas”, professores e alunos visitam 2500 anos de História, entrando e saindo dos velhos gregos, desarvorando em direcção à época Moderna, acumulando teorias, argumentos, demonstrações, Gnosiologias, Lógicas, Metafísicas, Ontologias, Éticas, tudo terminando em “pontos”, classificações, apelos lancinantes à criatividade e “espírito crítico”. O filosofar é, sobretudo, um elogio da lentidão, arte da espera…

Escolhas

«De facto, acredito que, se não compreendermos as escolhas racionais que estão na base de muitos dos nossos comportamentos, não conseguiremos compreender o mundo em que vivemos.»   Tim Harford

Razão e emoção

Segundo o senso comum, a razão é o contrário da emoção. Expressões como “tem juízo”, “pensa com a razão e menos com o coração” são-nos ditas constantemente ao longo da nossa vida, por quem nos ama, quem nos ensina e quem nos aconselha, mas também por quem menos gosta de nós. Por amor ou por ódio, muitos são os que insistem em chamar-nos à razão. A ciência económica tradicional compactua com esta dualidade, considerando que o processo de decisão é composto por dois mecanismos díspares e em constante conflito: o mecanismo racional e intelectual que nos faz tomar decisões certas e o mecanismo emocional e impulsivo, muitas vezes culpado das escolhas erradas e ineficientes. Deixa no entanto para a psicologia o estudo das emoções e foca-se nas escolhas que fazemos se fôssemos seres isentos de qualquer emoção. Isto é, se fôssemos o tal homo economicus que é exclusivamente racional, que sabe o que é importante para si, que faz escolhas calculando perfeitamente os riscos, os custos, os benefí…